Vinologique

Porque a vida é curta para beber vinho ruim – tudo sobre o mundo dos vinhos para iniciantes de um jeito simples e sem frescuras!


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O preço das tradições

Estes dias ouvi uma história de terror baseada em fatos bem reais que arrepiaria até os mais destemidos…

Alguns (poucos) restaurantes insistem em manter algumas tradições (para não dizer comportamentos machistas) que não só não fazem o menor sentido em 2015 como podem causar alguns imprevistos financeiros.

Sendo uma mulher jovem que gosta/entende um pouco de vinhos já fui “vítima” de muitos garçons que insistem em oferecer ou entregar a carta de vinhos direto para o homem da mesa (ou para a pessoa mais velha). O serviço também muitas vezes começa com esta mesma pessoa provando. Até aí entendo que foi este o treinamento que receberam, apesar de achar que estas instruções precisam se modernizar. Alguns garçons arriscam perguntar quem vai degustar, mas não é sempre nem em todos os estabelecimentos que isso acontece. Tudo bem, sem grandes danos até aí.

Mas alguns restaurantes vão além no preconceito tradicionalismo e oferecem cardápios sem preços para as mulheres. Uma gentileza, diriam? Bom, eu não sei vocês, mas independentemente de quem for pagar a conta eu acho bem normal querer saber quanto custa qualquer item do menu. Me sinto inclusive ofendida de ser privada desta informação, tratada como uma criança que depende de um adulto responsável para pagar. Enfim…

Era uma vez um homem que levou uma mulher para jantar num destes restaurantes tradicionalíssimos de São Paulo. Chegando lá, ele também quis fazer uma gentileza e pediu que a moça escolhesse o que iam beber. Já entenderam o que aconteceu, né? Ela recebeu o cardápio sem os preços, escolheu uma garrafa (não sei o quanto a escolha foi aleatória ou premeditada), eles beberam até a última gota e a conta foi entregue para o homem. Por algum milagre ele não teve um ataque cardíaco quando viu que a garrafa escolhida custava 5 dígitos – cerca de R$30 mil! O.O Ele achou que fosse engano, tentou argumentar, discutir, chorar. Fato é que o vinho era um rótulo raro, de uma safra igualmente especial, que foi totalmente consumido, e ele precisava arcar com o custo de tanto luxo. O cidadão teve que vender o carro para quitar a dívida – e provavelmente não deve conseguir beber mais uma taça de vinho sequer ou imaginar o rosto dessa mulher desde então. Como falei no começo, a história é real, aconteceu com o amigo de um amigo (e peço desculpas caso tenha distorcido algum detalhe sem querer).

Como não ouvi a história em primeira mão, eu mesma tenho dúvidas da veracidade dos fatos. Não pelo valor da garrafa, pois existem sim vinhos de preços exorbitantes, mas fico inconformada de pensar que alguém (seja homem, mulher, trans, golfinho, pouco importa) seja capaz de comprar um produto sem ter a menor ideia de preço e morro de vontade de perguntar para o mâitre do restaurante como eles não checaram com o “pagante” se ele estaria de acordo em desembolsar essa quantia exorbitante. Já pensei até que se fosse comigo eu processaria o estabelecimento por não ter feito isso, mas aí entro no loop mental de que jamais aconteceria comigo porque eu não ia pedir sem saber rs…

O ponto é que algumas destas chamadas “gentilezas” não têm a menor razão de existir numa sociedade onde as mulheres são economicamente ativas como a nossa. Qual é o problema da moça saber o preço de um prato ou de uma bebida, afinal?

Moral da história: perguntar (o preço, neste caso) não ofende! Até porque se for pra beber um vinho de R$30 mil, pagando ou não, quero ter certeza que estou vestida à altura para a ocasião! rs 😉

Saúde, santé, cheers, salud!

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Rapidinha – Lavando a taça suja

O post de hoje é dedicado especialmente às pessoas que têm mania de limpeza. Se for o seu caso, segure-se na cadeira pra ler a próxima frase. Acreditem ou não, o melhor jeito de lavar a sua taça é SEM detergente ou qualquer outro tipo de sabão.

Qualquer resquício de detergente na taça pode afetar a sua percepção sobre um vinho. Depois de usá-la, o melhor é apenas enxaguá-la com água morna. Caso o vinho tenha secado de um dia para o outro e tingido a taça, deixe-a um pouco de molho. Para secar, nada de pano de prato também! Deixe no escorredor ou sobre um pano até que esteja seca. Assim você não corre o risco de tomar vinho cheio de fiapos da próxima vez que ela for usada. 😉

Obs: caso a beirada da taça esteja manchada de batom, ok, deixo você passar a esponja ali para removê-lo. Mas só neste caso e só na pontinha mesmo.

Vinho com aroma de sabão, nunca mais! 🙂

Saúde, santé, cheers, salud!


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Na ponta da língua

Hoje quero falar um pouquinho sobre as sensações do vinho na boca.

Já ouvi muita gente dizer que prefere um vinho doce, ou “mais suave”, mas percebi que raramente é isso que querem dizer.

Para esclarecer o que é a sensação de doce vou fazer uma comparação com comida. O sabor doce é mais sentido pelas papilas na ponta da língua. Se tiver algum doce ou fruta madura perto de vc, faça o teste. Lamba um pedaço com a ponta da língua, espere um pouquinho e depois teste outro na lateral ou no fundo da boca. Você vai perceber que sente menos o açúcar nestas últimas regiões. Mas dependendo do que você usou ainda vai sentir outros componentes do sabor – e é aí que surge a confusão.

Esse gosto que você identificou no começo é o doce. A maior parte dos vinhos tem aromas de frutas, mesmo os mais secos, e são estes aromas que muita gente classifica errado. Os vinhos doces de verdade são aqueles que têm açúcar residual, ou seja, a uva utilizada na produção tinha tanto açúcar que só parte dele foi convertida em álcool, enquanto o resto ficou adoçando a bebida. É o caso dos famosos Sauternes, alguns estilos de Rieslings alemães e dos late harvest (colheita tardia), entre outros. Alguns são tão doces que até a textura é mais licorosa. Em geral, são conhecidos como vinhos de sobremesa.

Em compensação os vinhos secos podem ser muito aromáticos, alguns bastante frutados. Dependendo da produção e da uva utilizada, você pode identificar aromas de mel, baunilha, frutas em compota…coisas que o nosso cérebro foi sempre treinado para identificar como doce e por isso criamos inconscientemente esta expectativa de sabor. Um exemplo prático: o vinho natureba que tomei outro dia no Saint Vinsaint (post aqui) tinha um aroma muito intenso de doce de mamão, mas era extremamente seco na boca. A amiga que me acompanhou no jantar gostou muito mais do aroma do que do sabor, justamente porque criou a expectativa de que ele fosse mais docinho.

É importante entender a diferença para que você saiba comprar vinhos que realmente sejam do seu gosto – e evitar os que não são. 🙂

Outros fatores como corpo, álcool e acidez também são mal interpretados com frequência, mas vou deixar estes pra outros posts. 😉

Saúde, santé, cheers, salud!